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Entre os dias 2 e 9 de abril, aconteceu na cidade de San Diego (Califórnia) mais uma edição do Experimental Biology (EB), um congresso anual que reúne mais de 14 mil pesquisadores e expositores ligados a universidades e laboratórios de pesquisas governamentais e privados de diversos países. O congresso organizado pela Federação Americana das Sociedades para Biologia Experimental discute temas ligados a Anatomia, Fisiologia, Bioquimica, Patologia, Nutrição e Farmacologia. O pesquisador e mestrando pela Faculdade de Medicina da USP – Thúlio Ramos de Andrade, apresentou parte de seu trabalho nesse importante congresso e conta pra gente como foi essa experiência:

Guia Show: Como você avalia a participação do Brasil no Congresso EB?

R. Houveram apresentações de muitos trabalhos do Brasil, encontrei pessoas do Rio de Janeiro, de São Paulo, Minas Gerais, da Bahia e outros estados. Creio que o Brasil esteve muito bem representado, pois alguns trabalhos inclusive concorreram a prêmios. O que significa que as pesquisas desenvolvidas aqui têm relevância internacional.

Guia Show: Qual o estado da arte das pesquisas experimentais no Brasil?

R. O Brasil apesar dos poucos recursos em comparação a outros países, desenvolve pesquisas de relevância internacional. Nunca se valorizou tanto as pesquisas na área de saúde em nosso país, observamos isso, por exemplo, nas pesquisas sobre o Zika vírus em que os pesquisadores trouxeram respostas muito rápidas para a sociedade sobre um tema até então desconhecido. No entanto, nunca se investiu tão pouco em pesquisa como vemos agora, muitos recursos destinados à programas de pós-graduação e às agências de fomento de pesquisa, foram cortados e reduzidos o que dificulta muito a continuidade e a viabilidade dos estudos. Outro problema que os pesquisadores enfrentam é com a burocracia para importar insumos e instrumentos que não são produzidos aqui.

Guia Show: De que forma o Brasil poderia promover um melhor desenvolvimento científico tecnológico?

R. Investir em programas de pós-graduação e nas bolsas de mestrado e doutorado – uma vez que para recebê-las deve-se ter dedicação exclusiva à pesquisa. (E por que não assegurar direitos da previdência social e décimo terceiro como de qualquer trabalhador?). Destinar maiores verbas e recursos para as agências de fomento; criar leis que facilitem a importação de insumos e aparelhos de laboratório; nos EUA e na Europa é muito comum vermos além da figura do professor universitário (que é um cientista por excelência) a profissão de pesquisador em universidades e centros de pesquisa.

Guia Show: Quais benefícios esse desenvolvimento gera?

R. Os benefícios que o desenvolvimento científico e tecnológico gera são diretos e porque não dizer imediatos, uma vez que pesquisas quando viabilizadas trazem respostas rápidas para as demandas da sociedade. Sem contar nos benefícios indiretos em educação, na formação de novos profissionais de todas as áreas, na saúde e na representatividade do Brasil enquanto um país produtor de ciência.

Guia Show: Seu trabalho é com animais de laboratório, fale um pouco sobre a questão de pesquisas com animais, com humanos, suas dificuldades e essa questão ética de realização de pesquisa com animais.

R. A sociedade ainda tem muitas questões quanto as pesquisas experimentais no Brasil, principalmente quando são estudos em animais. É importante ressaltar que, para desenvolver uma pesquisa que utilize animais como modelo experimental em uma universidade, deve-se ter o aval de um comitê de ética que fiscaliza periodicamente o cumprimento de rígidas normas que asseguram a segurança e o bem-estar animal (ex: o animal não deve ser submetido a nenhum procedimento doloroso sem analgesia, a temperatura, as condições do ar, do ambiente do biotério – local onde as caixas dos animais são mantidos – e até a forração e número de animais das caixas são controlados); há constante preocupação com a redução na utilização do modelo e do número de animais e a otimização desse uso (o mesmo animal ser estudado em diversos aspectos).
Em nosso país as pesquisas com humanos (clínicas) ainda são bem difíceis de serem conduzidas, porque diferente do que acontece em outros países os indivíduos estudados devem ser voluntários, o que não se assemelha com os EUA e alguns países europeus, nos quais os sujeitos podem receber ajuda de custos e até incentivos para participarem de pesquisas. Ainda temos as questões sociais como por exemplo, a maioria dos centros de pesquisa no Brasil encontram-se em áreas centrais das capitais, imagine deslocar um voluntário de pesquisa, doente com as questões de trânsito e violência que essas cidades enfrentam, duas ou três vezes por semana para procedimentos relativos a pesquisa? São raros os voluntários que aceitam ou mesmo têm condições para participar.